» Um dia, se Deus quiser

É madrugada na pequena cidade. Na avenida principal, quase na esquina da praça, uma janela de venezianas antigas filtra réstias de luz sobre a calçada, brigando com o nevoeiro que paira por ali.
À exceção dos postes, que também ostentam suas lâmpadas de tímida intensidade, aquela é a única alteração a denunciar alguma coisa no silêncio da noite.

É de um pequeno quarto que vem a luz. Lá dentro o relojoeiro trabalha. No olho direito, firmemente segura pela longa prática, a lupa desvenda-lhe o defeito do caro Patek Phillipe que o coronel lhe confiara para reparos.
E ele sorri com alívio ao ver a insignificância de defeito: um minúsculo cisco, resquício de lubrificações antigas travara as engrenagens da máquina.
Com desembaraço ele remove o obstáculo e o relógio põe-se a funcionar de novo. Depois lubrifica onde é preciso, dá polimento onde se encontra opaco o estojo de ouro, encerra a jóia em seu invólucro de veludo e tranca-a num cofre.
Ao conserto feito não ajunta nenhuma nota de cobrança. – É do coronel, relembra, dando-se por bem pago por servir a alguém tão importante.

O velho empina o corpo judiado, dando-se por satisfeito naquela noite. Apaga a luz da pequena oficina e busca o interior da casa para o repouso. No corredor, pelo assoalho de taboas corridas, ele arrasta os chinelos, sem ânimo para levantá-los ao andar.
A idade já lhe cobra mais forças na busca da melhoria do exíguo orçamento doméstico. Quase sem se dar conta, completou setenta e seis anos, sempre na vida rotineira que o trouxe até aquele instante.

Como patrimônio, apenas o passado melancólico com o abatimento que se estampa no rosto a cada embate com a mulher. A vida tem sido sofrida dia após dia pelas críticas constantes da velha esposa a censurar-lhe a resignação diante da mediocridade.
E ela faz suas críticas porque, também ela, sente o final chegando exasperando-a em sua intensa ambição. – É tão pouco! - Reclama ao marido – Quarenta e cinco anos de casados e nem a casa própria! E a cada novo choque o homem abaixa a cabeça e busca refúgio na oficina.
Ele sempre abaixa a cabeça. A mansidão sempre o norteou; detesta entreveros. Quer paz, é tudo o que deseja, seguindo, então, no convívio da opressão que vai lhe exaurindo o resto de energias. Mas, lá dentro, grita uma secreta contestação, sempre a se manifestar naqueles momentos. Então ele faz promessas.
Confia com muita esperança ter um dia ao menos a sua casa. A mulher já não alimenta sonhos. Nunca estabelece prazos, mas sabe àquela altura que a vida já não lhes oferece mais chances. Na tentativa de amenizar a agonia que a toma, parte ela mesma para a luta: Faz curso de confeiteira, atendendo encomendas de bolos de ocasiões.
–Está vendo? – Apregoa ao marido a cada encomenda entregue – Se há de vir um dia essa nossa casa, terá de ser por minhas mãos.

O velho viera de Portugal. Em sua chegada trabalhara como escriturário no porto de Santos. Ao convite de um parente mudou-se para outra cidade do interior onde se arranjou na função de auxiliar de relojoeiro nas oficinas do mais antigo e competente profissional da época. Desde logo a atividade o cativou.
Lia tudo o que lhe chegava às mãos com respeito às intrigantes maquinas de marcar o tempo. Além do fascínio, a profissão prometia-lhe campo, ainda que não fosse para grandes farturas. Os dons naturais de habilidade artesanal o empurravam à frente tornando-o, em pouco tempo, competente relojoeiro.

Socialmente não vivia em extravagâncias. O máximo que se permitia eram dois dedos de prosa com poucos conhecidos mais cultos da cidade. Ali sim dava vazão ao prazer, ainda que sempre apressado para o retorno a oficina ou para a missa domingueira.

Nesse passado simples, segue o velho no presente o rumo sossegado que estabeleceu para a vida. A rotina não o amofina e até se entrega a ela com prazer. Na pequena oficina, no quarto frontal da casa, vive o seu mundo. As limpezas e arrumações ele mesmo as faz não permitindo a mulher ou filhos que interfiram em seu reinado. Determinou e exige com firmeza obediência àqueles limites, determinação que é a única tônica na escassa autoridade dentro de casa. É quase um regime de clausura através do qual foge das críticas constantes. Lá dentro de seu restrito espaço, segue curtindo as humilhações sem, contudo, deixar-se esmorecer. A índole abriga com firmeza a esperança de que, um dia, ainda provará algo ao mundo.

O cômodo da oficina está dividido em dois. Na parte anterior, onde fica a bancada de consertos, já não permite a bisbilhotice de ninguém. No compartimento seguinte, com maior cuidado faz encerrar segredos a sete chaves. Quando ali se instala, cuida sempre de fazê-lo com a porta de entrada fechada. Nessa segunda parte do cômodo, com feitio de alcova, passa os momentos de lazer em leituras, quase sempre técnicas, atinentes à profissão. Por ali também se instala quando tem algo mais secreto por fazer.

E a vida caminha naquele pequeno mundo, quase uma toca, como a servir de esconderijo ao medroso animal, acuado em seu meio. E a vida é sempre igual, numa rotina desanimadora para a mulher que a cada nova censura, tem como resposta a eterna promessa. Para ela o homem já se resume na figura do bagaço da moenda: já não há mais sumos para extrair. Sem esperanças, restam as críticas. Eles convivem a vida de casal, unicamente como resguardo do nome familiar. Ambos tem em conta o compromisso assumido no casamento. Mas convivem, apenas. Dormem juntos, apenas. Vivem sob o mesmo teto, apenas...

Então, um dia, acontece uma agitação maior no lar do relojoeiro. Uma caminhonete entrega uma caixa, encomenda pela qual é paga uma importância que faz estourar os parcos recursos poupados até ali. Contudo, seguro de si, o homem faz recolherem a caixa ao esconderijo da oficina. Comprara, num impulso, um relógio, tipo carrilhão, que jazia atirado a um canto da casa grande da fazenda de outro conhecido, este arruinado na vida. Com o conhecimento que a profissão lhe granjeara, o velho constatara a preciosidade da peça. Daquele mundo ele entendia. Desde logo, ao primeiro contato, se enamorara pela relíquia, atrevendo-se a sonhos através dela. Uma agonia lhe invadira, então, e ele já não abandonava os sonhos em relação ao vetusto relógio. Então sucumbiu aos planos, comprando a raridade: iria restaurar a máquina que lhe caíra nas mãos. Vislumbrara num átimo a chance de provar algo ao mundo...

E ele vive seu momento presente, concentrando-se no trabalho, que é cada vez mais intenso dentro da alcova. Já desdenha novas encomendas de consertos, como a testemunhar uma grande mudança na rotineira e acabrunhante vida. Como primeiro resultado, ganha a incremento das críticas da mulher. Não se importa. A vida está agora decididamente voltada para o carrilhão. Na fisionomia cansada a realidade da entrega se faz cada vez mais forte, mesmo sabendo que o risco não poderá ser compartilhado. O arriscado projeto é todo seu, cercado de maiores segredos ainda.

Numa tarde recebe o mestre marceneiro em sigilosa reunião que se arrasta por horas. Dois dias após é a vez de um calígrafo que tem a fama documentada nos epitáfios do cemitério local. Sua arte é estampada com maestria pelo cinzel nas placas de bronze ou nas pinturas esmaltadas. É um artista em seu mundo. Mais uns poucos dias e chegam-lhe também encomendas específicas, vindas da capital, da loja importadora de um colega italiano. A rotina da velha casa já não é a mesma. As críticas da esposa ganham a companhia de temores por algum desarranjo emocional do marido.

Estabeleceu um crescendo na dedicação ao projeto. O desdobro na faina diária está instalado e ele toma posturas de um compositor a sofrer com os arranjos das notas finais de uma pesada sinfonia. Já não observa os domingos. Se antes se excedia no horário, agora chega a tresnoitar na atribulada jornada.

Decorridas algumas semanas repentinamente os habitantes da casa e transeuntes da calçada começam a ouvir o mais belo som de carrilhão de quantos relógios daquela espécie, já tivessem passado por ali. Os sons emitidos extasiam os ouvintes; alguns mais avançados na idade reconhecem a melodia A Lenda da Montanha, famosa num passado das rádios novelas de seu tempo. A cada hora marcada pelos ponteiros, a música irrompe, dando-se ainda ao luxo da intercalação dos quartos e meias horas, que também assinala com melódicas batidas isoladas. E os sons raros, de um timbre inefável aos ouvidos cativa os que ouvem que admirados querem saber a origem daquilo. A informação, entretanto, é enérgica: - É segredo!

E o velho segue a consumir noites no estafante trabalho. Assume de uma vez a empreitada dando-lhe sentido consciente de ser a última cartada de sua vida. Se antes já tinha segredos em sua misteriosa clausura, agora se entrega a ela com maiores cuidados. Emprega ardor ao projeto que se cerca cada vez mais de incógnitas. A mente envolvida pelo audacioso plano supera o cansaço físico, emprestando-lhe ansiedade mística que gratifica o grande sonho estabelecido. Acredita finalmente numa chance, numa graça alcançada. Então ele a cerca de mistérios, querendo com isso enriquecê-la para a prova final.

Mais uns poucos dias e ele recebe a encomenda do marceneiro. Ajudado pelo contratado, recolhe a grande caixa de madeira para a alcova. Paga, também de forma apressada, recomendando todo silêncio ao profissional. Desde então, batidas de martelos, barulhos de lixas se somam ao cheiro de tintas e vernizes, criando novas sensações na casa. No acirramento da curiosidade, o homem se põe em guarda dobrada. Teimosamente se nega a qualquer explicação. Já há esboços de sorrisos nessas ocasiões, deixando entrever no rosto encarquilhado uma demonstração de vitória. Depois dos dias da surpresa inicial, por causa dos novos sons e cheiros, o silêncio voltou a casa. Um longo período de silêncio cedeu lugar outra vez para a rotina. Era como um encontro de amantes, onde, após o fogo da paixão inicial, os corpos se quedassem num repouso acomodado. Para a mente do velho, era o período da gestação... Seu feito já corria mundo pelos canais que ele bem conhecia.

Ainda um pouco mais de dias se transcorre. Numa tarde a casa recebe um visitante ilustre. O carro preto estaciona junto ao meio fio e o motorista solícito abre-lhe a porta traseira por onde sai o empresário inglês. Informado em seu meio, o homem vem ao esconderijo do relojoeiro para constatar a apregoada maravilha que ali fora restaurada. Viajante de todo o mundo, experimentador de todos os prazeres que a riqueza lhe proporciona, o homem cede, entretanto, diante de mais um oportunidade de enriquecer sua coleção de relógios exóticos. Pelas peças genuínas não mede valores para a aquisição. O histórico de seu acervo já inclui prêmios conquistados em exposições pelo mundo afora.

O colecionador fica tomado de euforia diante do que presencia na pequena alcova. A abertura da cortina pelo velho, bem ao centro do apertado cômodo, o relógio revela-se com toda imponência ao estupefato visitante. Uma incontida expressão dá conta de sua surpresa: Oh, my God! Também conhecedor profundo daquele mundo, o homem constata logo o valor do que se lhe apresenta. Vê a exclusividade e a fidelidade da restauração que não violou a autenticidade da peça, que como bem sabe, fora fabricada em série restrita, sob encomenda a poucos privilegiados do século passado. É um autêntico Junghans, constata. Em seguida à surpresa do início ele se entrega a minuciosa exploração dos detalhes. Na longa caixa, a porta frontal é entalhada com artísticos arabescos a realçarem o porte austero. Ao alto, o mostrador também restaurado, exibe o fundo branco esmaltado portando os grandes algarismos romanos que reluzem atrás da proteção do protetor de cristal. Um circulo menor, interno, ainda no mostrador, indica os dias do mês, apontados por um ponteiro gracioso, também todo recortado em desenhos. Mais abaixo, na mediana da caixa, outra abertura de menor porte, fechada também por cristal facetado, deixa ver a oscilação do pêndulo dourado, que em seu vaivém, quase hipnótico, fascina a quem observa a peça.

O visitante circunda o relógio, terminando seu exame. Antes de perguntas complementares que já as sabe desnecessárias, fica tomado pelo desejo da aquisição. Sente firmeza em tudo o que acaba de ver. É uma peça perfeita, digna de destaque em sua coleção. Assim, já sem dúvidas pela constatação do que vê, ele se trai, fazendo menção de iniciar negociação. O espírito está excitado e tem certeza de que uma oferta generosa poderá abreviar a ansiedade que o cerca. Chega a temer pela hipótese de que já exista algum compromisso. O apego já o envolveu e ele chega a sentir ciúmes, como se a raridade que contempla estivesse predestinada a ser sua. Faz sinal de querer falar, mas o velho o interrompe, adiantando-se em direção ao relógio. Ele bem sabe os trunfos que tem nas cartas... Com movimentos pausados leva ambas as mãos ao móvel, abrindo a porta do rico gabinete da jóia. Com movimentos pausados, adianta os ponteiros em dez minutos, fazendo-os atingir a marca das dezesseis horas. Incontinenti o som do carrilhão invade o ambiente e o empresário sucumbe à melodia. Senta-se num tamborete, fecha os olhos, deliciando-se com o nostálgico bimbalhar. Acostumado aos mais variados sons de carrilhões, ele se queda, entretanto, diante do que ouve. É diferente – comenta em pensamentos – é mesmo próprio de um legítimo Junghans. Extasiado ele pede ao velho que provoque de novo a máquina, fazendo-a repetir a melodia. Acompanhando o compasso ele balança as mãos a guisa de maestro. Em seguida, como que emergindo de um sonho, empertiga-se, afastando-se um pouco, admirando de novo a exuberância do relógio. Então, já sem dúvidas, dirige-se ao velho e lhe faz proposta para a compra. A soma oferecida surpreende o relojoeiro que em sua modéstia não esperava tanto. Mas outra vez ele se lembra de que, se ao comprador aquela é apenas mais uma compra, para ele a operação apresenta-se única. Sabe que o adversário está em suas mãos e que ainda mais poderá ser exigido em paga de sua arrojada aventura. Sabe que aceitando logo, estará abandonando a oportunidade de exaurir o rico filão que a vida lhe dera em prêmio. A única pedra preciosa, conseguida na longa garimpagem que vivera até aquele dia. Então ele move sua peça no tabuleiro, visando com segurança o cheque mate. Pondera sobre o valor oferecido, atribuindo-lhe justeza. Mas a um tempo faz ver ao pretenso comprador que tudo que está diante dele foi fruto de um trabalho de denodo, com conhecimento profundo daquela arte, o que lhe enriquecerá, sobremaneira, a posse da raridade que negociam. Com controle absoluto da emoção, relata um pouco de seus conhecimentos e estudos.

O empresário inglês esperava pela argumentação que acabara de ouvir. Fingindo firmeza diante da ansiedade que o quer envolver, ele sente o jogo pender a favor do velho. Então, ele eleva consideravelmente o valor inicial. O relojoeiro aquiesce com um meneio de cabeça, emprestando até um pouco de humildade no gesto, tudo para ganhar de vez na venda da grande obra de sua vida.

Já é quase noite. O carro preto se afasta. À porta, o velho segura um envelope contendo o cheque. Acompanha com a vista o veículo, até que dobre a esquina. Ele está calmo, sem transpirar emoções. Apenas estampa um semblante de muita paz. Lentamente recolhe-se ao interior da casa. Pelo corredor encontra-se com a esposa que ansiosa lhe vem ao encontro, revirando um avental nas mãos. E o velho a convida: - Vem comigo.

Dirigem-se para a copa e ele a convida a sentar-se. Abrindo a geladeira serve-se de um copo de leite, sempre com gestos pausados e seguros. Nos lábios, quase num sussurro, cantarola a Lenda da Montanha. Vive um momento que lhe oferece armas poderosas para o desabafo. Bebe o leite com prazer erguendo o copo em seguida, em atitude de quem acaba de fazer um brinde. Mas é tudo o que deixa transparecer. Não quer vinganças.

Volta-se para a esposa e entregando-lhe o envelope, diz: - Aí está a minha promessa de tanto tempo. Dá para nossa almejada casinha e umas coisinhas mais...

Lá da copa o casal ouve mais uma vez o carrilhão executar A Lenda da Montanha. Ele está assinalando dezoito horas. A hora da vez.

Autor: Ricardo Ferraz
"Membro da Academia Caçapavense de Letras."