O Tempo para Cosmopolitas.

Pessoas que viajam constantemente, não só aqui no Brasil, mas especialmente para os que fazem viagens internacionais estão habituadas a acertar seus relógios de acordo com o fuso horário onde se localiza seu destino, porém essa correção exige boa memória e certa delicadeza.

Relógios com fusos horários resolvem, de certa forma, esse problema. Essencialmente existem dois tipos desses relógios: O World Time (Hora mundial) ou "Heure Universalle" de mesma tradução) mostra todas as 24 zonas do tempo no dial, necessitando apenas de um pequeno ajuste do bezel para que se obtenha a hora na localidade desejada.

Os outros modelos se limitam a simplesmente mostrar um segundo fuso horário. Nesse tipo de relógio o ponteiro das horas pode ser ajustado de hora em hora até a hora desejada do fuso local, deixando o ponteiro dos minutos e um ponteiro de horas adicional (24 horas por revolução) inalterados. Nos relógios eletrônicos esses ajustes são basicamente os mesmos, porém são guiados pelos circuitos integrados e programas apropriados que muitas vezes são incluídos com o relógio com pouco ou nenhum custo adicional.

Quando se trata de um relógio mecânico a situação é completamente diferente. Por mais simples que seja um ajuste mecânico ele exige um conjunto complexo de engrenagens e acionadores cuidadosamente calculado, assim sendo, um custo técnico adicional que faz toda a diferença.

Mas a razão principal para a fabricação deste tipo de relógio remonta ao passado e leva em consideração o movimento das estrelas, do sol e principalmente da rotação da Terra. Essa rotação faz com que o Sol pareça se movimentar pelo seu no sentido leste-oeste com o seu apogeu (meio-dia) se repetindo a cada 24 horas.

No início do século XIX as pessoas andavam no ritmo dos cavalos e barcos a vela e a questão do horário não tinha grande importância. As cidades, mesmo que vizinhas, tinham horários locais diferentes, conhecidos como Horário Civil (Civil Time).

Com a invenção e o triunfo do motor a vapor, a introdução do telégrafo a partir de 1809 assim como as seguintes inovações nos meios de comunicação e informação trouxeram uma aceleração inimaginável na vida diária. Por volta de 1830 estradas de ferro e barcos a vapor substituíram a força animal e o vento na movimentação de transportes. Surge um novo conceito: a velocidade. Com esta a pontualidade torna-se indispensável na mobilidade. Coordenar o tempo passa a assumir um papel cada vez mais importante

Os primeiros trens, embora ainda lentos, representam um aumento significativo no ganho de velocidade comparados com a carroça e demais carros de tração animal, ganho este, suficiente para deixar os novos viajantes extasiados, afinal, em uma viagem que antes era realizada em 5 horas agora poderia ser feita em 35 minutos, por exemplo. Com o crescente aumento da velocidade, o crescimento da malha ferroviária e a dependência de horários algo deveria ser feito com relação ao tempo urgentemente.

Foi especificamente nos Estados Unidos, onde as empresas ferroviárias tinham de enfrentar grandes distâncias, que o caos nos horários foi especificamente abordado. Em 1873 haviam não menos que 71 diferentes horários ferroviários. Pelo menos três relógios eram necessários em cada um dos entroncamentos ferroviários, um para a estação local e um para cada um dos comboios (Leste e Oeste, por exemplo). Assim a padronização de um tempo para coordenar a atividade ferroviária tornou-se indispensável.

Nesse cenário, o engenheiro-chefe da Canadian Pacific Railway, Stanford Fleming, entrou em cena. Ele propôs a criação de 24 zonas de tempo claramente definidas e em cada uma delas o mesmo horário deveria prevalecer e ao se cruzar de uma para outra zona os relógios deveriam ser ajustados em uma hora para frente ou para trás. Apesar do brilhantismo da proposta havia um problema: Onde as zonas deveriam iniciar? Em outras palavras: Onde se situaria o primeiro meridiano? Em Jerusalém? Em Greenwich? Ou em algum lugar no meio do oceano? No final venceu Greenwich e no oposto do globo, a 180º o limite de data internacional.

Foi nos Estados Unidos e Canadá, onde a questão do tempo era mais urgente, que a solução de Fleming foi implantada primeiro. Mas os outros países relutaram em engolir seu orgulho aceitar a implantação desta norma. A França introduziu formalmente o horário de Paris como oficial em vez dos horários ferroviário (Sistema Greenwich). Vinte anos depois o sistema Greenwich foi adotado relutantemente, contudo, sem adotar o nome do observatório Inglês. No entanto, os preceitos de Fleming nem sempre foram respeitados rigorosamente, pois havia sempre algum lugar no mundo onde as questões políticas e geográficas prevaleciam.

De uma forma geral os relógios de fuso horário mecânicos podem ser divididos da seguinte forma:

- Dois mecanismos distintos numa mesma caixa. A desvantagem dessa solução é que o horário precisa ser eventualmente corrigido devido a diferença na freqüência que sempre existe entre dois mecanismos.

- Um único mecanismo numa caixa reversível mostrando dois horários distintos, sendo um na frente e outro na parte de trás da caixa.

- Um ponteiro de 24 horas sincronizado com o ponteiro normal de 12 horas. O horário no segundo fuso horário pode ser lido ao se ajustar o Bezel (Com as 24 zonas) para a zona correspondente.

- Dois ponteiros de hora sincronizados, um dos quais pode ser ajustado independentemente em incrementos de uma hora.

- Um mecanismo que movimenta um ou mais pares de ponteiros e que podem ser ajustados separadamente.

- Um anel segmentado em 24 divisões que gira em torno de um anel com as 24 localidades, cada uma representando um fuso horário. Esses relógios mostram a hora local simultaneamente em todas as zonas.

Se você é proprietário de um relógio com cronógrafo e este possuir um indicador de 12 horas você pode usá-lo para indicar um segundo fuso horário. Se você iniciar o cronômetro exatamente ao meio-dia antes de viajar o cronômetro indicará o horário de "casa" durante a viagem e os ponteiros normais poderão ser ajustados ao horário local. Da mesma forma você pode ajustar seu cronômetro para mostrar a hora local iniciando o cronógrafo ao meio-dia ou meia noite do horário local. Claro que esse recurso não permite que você use o seu cronômetro para contar intervalos de tempo, mas como se costuma dizer, você não pode ter tudo!

Fontes:
- Livro Wristwatches Armbanduhren Montres-bracelets - Gisbert L. Brunner / Christian Pfeiffer-Belli.

Tradução e Revisão do Texto:
- Mauro A. Lucchini