"Parque do Caraça"

Prezado amigo colecionador de relógios, mais uma vez a ABRACORE apresenta seu informativo bimestral "Tempus Fugit", oferecendo a todos a história de um patrimônio cultural do Estado de Minas Gerais, o Parque do Caraça, junto com interessante depoimento sobre o processo de restauração do relógio da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, que se encontra na sede do parque.

Vista da sede do Parque "O Santuário do Caraça"

Para aqueles que não conhecem este parque natural, podemos dizer que é uma verdadeira jóia da geografia do Estado de Minas Gerais, onde os primeiros bandeirantes que chegaram à região se impressionaram com aquele gigante de pedra deitado. Ali na Serra do Espinhaço, Minas Gerais, o grande perfil esculpido na pedra sugeriu o nome de Caraça.

Em 1850 chegaram os padres franceses que trouxeram o humanismo de sua pedagogia, exercendo grande influência tanto na parte educativa, quanto na administração do Colégio.

Por um período de mais de 150 anos, passaram pelo Colégio cerca de 12.000 alunos, caracterizando-se pela disciplina e seriedade. Entre 1820 e 1912, atuou como colégio secundarista, para formação da elite intelectual e política do país. Aí estudaram cinco presidentes da república (Artur Bernardes, Delfim Moreira, Afonso Pena, Juscelino Kubtschek e Jânio Quadros), centenas de políticos, desembargadores, cientistas, padres e renomados bispos.

O imperador D. Pedro II, quando visitou o Colégio, em 1881 ficou encantado e surpreso com a recepção, pois foi saudado em diversas línguas, pelos alunos.

Depois de 1902, o Colégio atuou apenas como seminário. Após 1930, enfrentou sérias dificuldades financeiras agravadas pelo período da guerra. Um incêndio provocado por um fogareiro elétrico derrubado por um seminarista pôs fim ao funcionamento do Colégio e do Seminário, em 1968. De toda destruição, apenas parte do acervo da biblioteca foi salvo pelo esforço dos alunos seminaristas.

Hoje o Caraça é um centro turístico importante. Foram organizados a biblioteca e um museu. As ruínas do incêndio transformaram-se em centro cultural e antigas construções deram origem a pousadas. Os padres ainda vivem ali, podendo contar as inúmeras histórias guardadas neste pé de serra, inclusive sobre as visitas noturnas do Lobo Guará.

"Foto do lobo guará no Parque do Caraça"

Agora, para deleite dos amantes do colecionismo e restauro de relógios, relatamos abaixo na íntegra, o processo de restauro do relógio da Torre da Igreja.

No dia 21/11/2002 o relógio foi trazido da torre, parte em baldes, desmontado, a estrutura com alguns eixos e o bloco de ferro fundido, empenado provavelmente por uma queda. Foram 20 dias de limpeza e tentativas de montá-lo, não sou relojoeiro. Como faltavam muitas peças e como não havia esquema e nenhuma referência a dificulade aumentou. Apelei para a mecânica, o que sou melhor que relojoeiro.

Com paciência e o estímulo do Pe. Walter e outros, fui fazendo as peças que faltavam até que tudo estava montado. Faltava pendular, ninguém sabia a extensão do curso do pêndulo até que o Sr. Narcisio de Barão de Cocais deu a dica que faltava, foi o bastante para continuarmos o trabalho. Logo consegui que batesse os quartos de hora com mais peças feitas, umas partidas e outras certas fizemos também bater as horas etc. A cremalheira do tambor central estava partida em 4 partes devido a possível queda, tentaram fazer alguns mancais até de madeira etc.

O relógio é uma estrutura de ferro fundido, eixo em aço “doce”, mancais e engrenagens são de bronze especial. Vinte por cento mais ou menos maquinado – usinado – o restante foi feito artesanalmente e com ajustagem manual. É uma jóia de engenharia, perfeito em seus detalhes. Foi um trabalho prazeroso e compensador.

Ele me ensina, eu fazia “peças” e errava, repetia, acertava ele “agradecia”, e assim se passaram 4 meses com a compreensão do Pe. Célio e Pe. Sebastião. Hoje, dia 12/04/2003, aniversário do meu filho Petrônio, ele, o relógio, está na torre em seu cômodo, todo pintado, protegido e o mais importante: Funcionando.

Hoje também marca a data da entrega da manutenção e cuidados do relógio ao Sr. Paulo Eustáquio Siqueira, pessoa que julguei capacitada para tal função, trata-se de um funcionário da casa.
Caraça – 12/04/2003
Alemmar Alves Salgado (Chamado de Cigano).

"Foto da torre da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens"

Segue abaixo dados do relógio:

- Data de instalação: 1883
- Comprado pelo Pe. Julio Clavelin, então superior.

- País de origem: França

- Fabricante: Bailly Comte Freres Morex du Jura

Dados Complementares:

- Tempo parado antes da última restauração: 25 anos. - A duração da corda é de aproximadamente 6 dias.

Dados Técnicos:

- O mecanismo do relógio é movido por pesos de chumbo, tendo a máquina aproximadamente 70 Kg.
- Antes de bater todos os quartos e horas há uma batida de aviso. As horas são repetidas perfazendo 888 batidas em 24 horas. Sendo 3 sinos: Um pequeno, um médio e outro grande.
O pequeno avisa, o pequeno e médio juntos, com um pequeno intervalo bate os quartos de hora até os quatro quartos. O grande bate as horas e repete mais ou menos um minuto e meio após, sendo esta a sequência:

Exemplo:

- Às 12:00h – 1 batida de aviso (Sino pequeno)
- 4 batidas dos quatro quartos (Sinos pequeno e médio)
- 12 batidas referentes às horas e mais 12 pela repetição após um minuto e meio, perfazendo 29 batidas nas 12:00h.

Inscrição encontrada na Torre do Relógio:

"OMNI TEMPORIS HORA AETERNITATIS DEUM ADORA"
"Em todas as horas do tempo (que eu marco), adore ao Deus da eternidade".

Especial Agradecimento:

Pe. Marcus Alexandre, CM

Revisão do Texto – Luiz Paulo Brasizza